Quando a gente chega nos EUA e começa a trabalhar, a primeira coisa que se comemora é o valor por hora — muito maior do que qualquer coisa que se ganhava no Brasil. O que quase ninguém explica é que, dependendo de como você é pago, uma parte desse dinheiro não é sua. E se ninguém separou essa parte por você, a conta chega de uma vez só, em abril.

Pesquisando o assunto, descobri que a diferença toda começa em dois códigos que aparecem o tempo todo na conversa de brasileiro aqui: W-2 e 1099. Neste post eu explico o que cada um significa, por que o 1099 pega tanta gente de surpresa, o que é o ITIN e quanto vale a pena guardar por mês pra não ter susto.

Formulários de imposto americano com calculadora sobre mesa de madeira
Foto: Pexels

W-2 x 1099: qual é a diferença na prática

W-2 é quando você é funcionário (employee). A empresa desconta o imposto direto do seu pagamento (o chamado withholding), paga a parte dela de Social Security e Medicare e, no começo do ano, te entrega o formulário W-2 com tudo o que foi pago e retido. É o mais parecido com a carteira assinada no Brasil.

1099 é quando você trabalha como autônomo/prestador de serviço (independent contractor). Limpeza, construção, pintura, Uber, DoorDash, Instacart… boa parte dos trabalhos que muitos brasileiros fazem aqui cai nessa categoria. Você recebe o valor cheio, sem nenhum desconto — e é justamente aí que mora o perigo.

Por que o 1099 assusta tanto

Como ninguém retém nada, quem trabalha como 1099 é responsável por pagar sozinho três coisas:

  • Imposto de renda federal (IRS), que funciona por faixas, igual ao do Brasil;
  • Imposto de renda estadual — em Massachusetts, por exemplo, é uma alíquota fixa de 5% (alguns estados, como Flórida e Texas, não cobram);
  • Self-employment tax (imposto de autônomo): 15,3% para Social Security (12,4%) e Medicare (2,9%). Quando você é W-2, a empresa paga metade disso; no 1099, você paga as duas metades.

Esse imposto de autônomo é devido se o seu lucro líquido como autônomo passar de $400 no ano. Ele incide sobre 92,35% do lucro. Num exemplo simples: quem teve $40.000 de lucro líquido no ano paga cerca de $5.650 só de self-employment tax — e isso antes de somar o imposto de renda federal e o estadual.

É por isso que tanta gente fecha o ano achando que foi bem e, na hora de declarar, descobre que está devendo alguns milhares de dólares pro governo.

“Mas eu nem recebi o formulário 1099…”

Isso é mais comum do que parece, e tem um detalhe novo: a partir dos pagamentos feitos em 2026, a empresa só é obrigada a te mandar o formulário 1099-NEC se tiver te pago $2.000 ou mais no ano (antes o limite era $600). Ou seja, vai ter ainda mais gente recebendo sem formulário nenhum.

Só que não receber o formulário não significa que o dinheiro não é tributável. Todo ganho precisa ser declarado, com ou sem papel. Por isso o controle tem que ser seu: anotar cada pagamento recebido, de quem e quando.

E o ITIN, pra que serve?

O imposto não depende de ter Social Security Number. Quem não tem direito a SSN pode pedir um ITIN (Individual Taxpayer Identification Number) ao IRS, pelo formulário W-7, normalmente junto com a primeira declaração. O ITIN serve para cumprir as obrigações fiscais — ele não dá autorização de trabalho nem muda status nenhum.

Na prática, além de manter você em dia com o IRS, declarar com ITIN cria um histórico que ajuda em outras frentes: alguns bancos aceitam o ITIN para abrir conta e pedir cartão, o que ajuda a construir histórico de crédito. Eu contei como foi abrir minha conta no post sobre conta bancária sem SSN.

Imposto trimestral: o calendário que ninguém te conta

Nos EUA, quem é 1099 não deveria esperar até abril para pagar tudo. O IRS espera que o autônomo pague o imposto ao longo do ano, em parcelas chamadas estimated taxes. Se você deixa tudo pro final, pode levar multa e juros além do imposto. As datas das parcelas referentes a 2026 são:

  • 15 de abril de 2026 (1º trimestre)
  • 15 de junho de 2026 (2º trimestre)
  • 15 de setembro de 2026 (3º trimestre)
  • 15 de janeiro de 2027 (4º trimestre)

O pagamento federal pode ser feito online pelo site do IRS (IRS Direct Pay). Massachusetts também tem o seu próprio imposto estimado, pago no site do estado (MassTaxConnect). Se você perdeu as primeiras parcelas deste ano, ainda dá tempo de se organizar para a de janeiro — e já começar 2027 no ritmo certo.

O que dá pra descontar (e que muita gente esquece)

A boa notícia do 1099 é que você paga imposto sobre o lucro, não sobre tudo o que entrou. Gastos que são do trabalho podem ser deduzidos. Os mais comuns:

  • Milhagem do carro: em 2026, o IRS permite deduzir 72,5 centavos por milha rodada a trabalho de janeiro a junho e 76 centavos por milha de julho a dezembro. Pra quem vive no carro — e aqui carro é necessidade, não luxo — isso faz uma diferença enorme. Mas precisa de registro: data, destino e milhas de cada viagem.
  • Materiais e ferramentas usados no serviço (produtos de limpeza, ferramentas, uniforme, EPI).
  • Parte do celular e da internet que é usada para trabalhar.
  • Metade do próprio self-employment tax, que é deduzida no cálculo do imposto de renda.

Tudo isso só vale se você tiver como provar. Nota, recibo, extrato e anotação de milhagem: guarde tudo.

Quanto separar por mês pra não ter susto

Uma regra de bolso bem usada por autônomos é separar entre 25% e 30% de cada pagamento assim que ele cai, numa conta separada que você não mexe. Não é um cálculo exato — depende da sua renda, das suas deduções e do seu estado — mas é uma margem que costuma cobrir o imposto e ainda deixar alguma sobra. Se no fim sobrar, ótimo: vira reserva ou investimento (falei sobre isso no post onde investir sendo brasileiro nos EUA).

O importante é tratar esse dinheiro como se ele nunca tivesse sido seu. Quem gasta tudo e deixa pra resolver em abril é quem acaba parcelando dívida com o IRS.

Um aviso importante

Eu não sou contador — este post é o que aprendi pesquisando e conversando com quem já passou por isso. Cada situação é diferente, então vale procurar um tax preparer de confiança. Uma dica: preparadores pagos precisam ter um número PTIN registrado no IRS. Desconfie de quem promete uma restituição alta sem nem olhar seus números, ou de quem cobra uma porcentagem da restituição.

Como eu organizaria isso na planilha

Se você é 1099, o imposto precisa virar uma linha fixa do seu orçamento, e não uma surpresa de abril. Na minha planilha de controle de gastos dá pra criar uma categoria “Imposto” e lançar ali os 25–30% de cada pagamento que você separou, além de registrar os gastos dedutíveis (materiais, celular, milhagem) ao longo do mês. Assim, na hora de declarar, você já tem tudo organizado em um lugar só — e sabe exatamente quanto sobrou de verdade. Clique aqui para pegar a planilha.

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4 respostas

  1. […] Renda que varia: quem trabalha como 1099 (autônomo) não tem salário fixo, e ainda precisa separar o imposto. Expliquei isso no post sobre W-2 ou 1099. […]

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  2. […] na sua declaração. A corretora manda o formulário 1099 no começo do ano. Veja o post sobre W-2 ou 1099 pra entender o resto do […]

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  3. […] Imposto em dia. Se você é 1099, separe a parte do imposto antes de investir (veja o post W-2 ou 1099). […]

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  4. […] Ou seja: com salário mínimo, mal dá pra pagar o cenário do quarto, e o apartamento sozinho fica fora de alcance. E se você trabalha como 1099, ainda precisa separar uma parte de cada pagamento pro imposto (expliquei no post W-2 ou 1099). […]

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